sábado, dezembro 30, 2006

Kafka no restaurante

Interessante. Criativíssimo.

Saiu no LLL


Kafka no restaurante

Alguém deve ter distorcido seu pedido, pois assim que Joseph K chegou no restaurante o garçom já lhe trouxe um bife. Joseph K mandou voltar o bife e o garçom disse que não tinha autoridade pra devolver o bife, que Joseph K deveria falar com o Gerente-Geral. Joseph K pede que ele pelo menos afaste o bife, pois é vegetariano e tem nojo. O garçom diz que não pode fazer nada, que é apenas uma engrenagem na grande máquina do restaurante, que não sabe como as coisas funcionam, que tem acesso apenas ao 3o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 2o cozinheiro, que teria que passar o bife ao 1o cozinheiro, que teria que passar o bife ao cozinheiro-chefe, que nenhum deles nunca tinha visto, não sabiam nem se existia um cozinheiro-chefe. Joseph K pede que o garçom então chame o Gerente-Geral. O garçom avisa que é inútil, que o Gerente-Geral nunca vem ao restaurante, nunca gerencia nada e nunca, nunca fala com os clientes, mas que iria tentar assim mesmo.

Enquanto espera, Joseph K começa a trocar olhares com sua vizinha de mesa, uma certa Fräulein Bürstner, que ele conhecia de vista. Ela se aproxima dele, senta ao seu lado, passa o pé por sua perna e tenta avisá-lo para não devolver o bife, melhor comê-lo e pronto, mas ele se recusa a ceder, e ela se afasta, desiludida, dizendo que então não poderá protegê-lo.

Aparece um novo garçom, dizendo que desde o começo dos tempos, nunca ninguém conseguiu devolver um bife, e aponta um senhor sentado no fundo do restaurante, que estava esperando seu bife há anos e anos, mas que ele, garçom, conhecia o cozinheiro-chefe e poderia interceder em nome de Joseph K.

Os anos se passam. Joseph K está magro pela falta de comida. Não ganha nem sobremesa até acabar seu bife. Um dia, um cozinheiro de outro restaurante senta em sua mesa e lhe conta uma história. Um freguês chega diante da porta da cozinha, protegida por um guarda enorme, e lhe diz que gostaria de entrar. O guarda não deixa e o homem senta pra esperar. Ambos esperam a vida toda. O freguês tenta subornar o guarda, que aceita os presentes mas não o deixa entrar. Muitos anos depois, quando o homem já está morrendo de fome e de velhice, o guarda lhe diz que aquela cozinha tinha sido construída somente para ele e, agora que iria morrer, ela seria fechada pra sempre. Joseph K não entende nada.

Finalmente, dois garçons fortes como dois armários saem da cozinha dispostos a resolver tudo, levantam Joseph K pela gola e arremessam ele e seu bife no chão. Uma bota militar aperta a cabeça de Joseph K contra o bife e o garçom manda: come tudo, agora, assim!

Joseph K obedece. Como um cão.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O Império do Efêmero: A moda e seu destino nas sociedades modernas

Confesso que, quando ouvi falar de um livro filosófico/sociológico que tratava de um assunto tão impertinente como "a moda", fiquei extremamente receoso. Para mim, sinceramente, não havia problemática a ser discutida em um assunto tão banal. Errei duplamente: a problemática existe e o assunto não é tão banal e impertinente quanto eu pensava.

O Império do Efêmero é um dos livros mais famosos do Filósofo francês Gilles Lipovetsky. Comprei-o na última semana e por enquanto só tive a oportunidade de ler a introdução (tenho a péssima mania de ler vários livros ao mesmo tempo). Porém, já me foi esclarecedor. Segue abaixo algumas transcrições de partes importantes da introdução do estudo:

(...) Desde os anos 1940, Adorno e Horkheimer insurgiram-se contra a fusão "monstruosa" da cultura, da publicidade e divertimento industrializado que acarreta a manipulação e a estandardização das consciências. Mais tarde, Habermas analisará o pronto - para - consumoir midiático como instrumento de redução da capacidade de fazer um uso crítico da razão; Debord denunciará a "falsa consciência", a alienação generalizada, induzidas pela pseudocultura espetacular. (...)

(...) Abram então os olhos para a imensa miséria da modernidade: estamos destinados ao aviltamento da existência midiática; um totalitarismo do tipo soft instalou-se nas democracias, conseguiu semear o ódio pela cultura, generalizar a regressão e a confusão (...)


domingo, dezembro 10, 2006

Reflexões sobre o panteísmo II

Acabei de fazer uma descoberta, no mínimo, fascinante: Schopenhauer era panteísta! Bem, é o que presumo da leitura de alguns de seus fragmentos. Schopenhauer assume uma visão ascética de mundo, beirando o oriental (hinduísmo e, talvez, budismo). No seu entender, o homem, ao perecer, assume seu mais sagrado desígnio: fazer parte do todo, do uno. Finalmente entendi o porquê de muita gente sofrer ao ler Schopenhauer. É explicável.
Agora, clareando a idéia dos menos esclarecidos, Schopenhauer estava longe de ser um "pessimista por profissão". Eu sei que minha postura, em se tratando de Schopenhauer, é um tanto opulenta, arrogante...Mas, fico estremamente desestabilizado quando interpretam um grande teórico de maneira tão desvirtuada, tão irresponsavelmente.
Schopenhauer, no meu parecer, era essencialmente panteísta, sim. Mas, nem por isso era um grande "reclamão" como alguns pesudointelectuais teimam afirmar. Schopenhauer era um amante da vida, porém, analisava-a com "olhos" ascéticos. Agora, deixem-o em paz. Não irritem-o.